Kalyne Martins estreia no @portalmempi: Empresa familiar ou família empresária?

Podemos conceituar uma empresa familiar como aquela que transfere algo ou alguma coisa de pai para filho, ou para outro membro participante de determinada família. Segundo Adam Smith (2002, p.15), “ todo homem estava obrigado por um princípio religioso a seguir a ocupação de seu pai e estaria cometendo o mais nefasto sacrilégio se mudasse para outra”. Este costume surgiu no antigo Egito.

Essa prática também foi muito comum na Idade Média, sempre o pai transmitindo conhecimento ao filho e geralmente para o mais velho. As empresas familiares ocupam um papel de extrema importância na economia mundial. Segundo Carina Matos Santo (2018), estima-se que de todas as empresas do mundo, 65% a 80% são familiares.

No Brasil, essas empresas surgiram com o fluxo migratório após as Grandes Guerras. Possuímos de 6 a 8 milhões de empresas, sendo que 90% delas são empresas familiares. Seja grande, média ou pequena, as empresas familiares têm um papel significativo no desenvolvimento econômico, social e até político de vários países (SEBRAE, 2016). Segue alguns exemplos de empresas familiares brasileiras: Itaú Unibanco, Gerdau, Grupo Pão de Açúcar Magazine Luiza, Votorantim e Sadia.

Segundo o SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, o desafio de manter uma empresa familiar é grande. “De cada 100 empresas familiares brasileiras, ou seja, 70% das empresas familiares, encerram suas atividades com a morte de seu fundador; e o ciclo médio destas empresas é de 24 anos. Os 30% restantes chegam na segunda geração e apenas 5% na terceira geração”. Segundo as estatísticas, a maioria não consegue sobreviver a passagem para a futura geração ou a fazem com muitos conflitos.

A maior preocupação das empresas familiares é a sua sobrevivência e, a maioria delas, enfrenta problemas existenciais ou estratégicos. De acordo com Peterlini e Palombino (2010): a história muitas vezes se repete. Os filhos estudam em universidades conceituadas e os pais, por sua vez, administram os negócios com sua experiência, não se importando com as teorias pertinentes à administração. Existe em muitas empresas a figura do empreendedor nato, aquele que não precisa de um processo de aperfeiçoamento, este, por sua vez, tendo esse conceito em mente esquece-se dos empreendedores profissionais para gestão das empresas, empreendedores que possuem habilidades profissionais que precisam ser desenvolvidas.

A partir desse ponto, os conflitos começam a surgir e as divergências de ideias passam a ser motivos de discussões. O problema acarretado por essas discussões é que nem sempre as divergências acabam ao sair da organização, mas continuam no ambiente familiar ou domiciliar. As vendas de muitas empresas familiares ocorrem, pela acomodação das gerações sucessoras. Um exemplo clássico é o da cervejaria belga Anheuser-Busch. Uma empresa familiar que foi bem-sucedida, entretanto, a vida luxuosa dos filhos do fundador levou à queda dos resultados da empresa, propiciando a fusão com a brasileira Ambev.

Assim, os pontos que devem ser observados em empresas familiares, são: falta de comando central; falta de planejamento para médios e longos prazos; baixo profissionalismo; conflitos internos; falta de compromisso e responsabilidades; descapitalização da empresa; controle contábeis irreais; emprego de parentes; e sócios não tão competentes. Isto, explica os dados mundiais que indicam a alta taxa de falência das empresas familiares na comparação com as demais organizações.

Laura Ribeiro Rosa (2014), revela que a maioria das pequenas empresas familiares, o processo de gestão é pouco profissional, e muitas vezes feito de forma centralizada. Ferramentas de gestão, tais como: de controle de caixa, motivação, planejamento estratégico e outros instrumentos, são pouco usadas, ou até mesmo desconhecidas pela maioria das empresas familiares de pequeno porte. É comum que essa gestão seja voltada para os objetivos da família e em muitos casos há certa mistura de atribuições e confusão entre patrimônio da empresa com a renda dos gestores.

Para o senso comum, empresa familiar é sinônimo de uma empresa em que família e negócios se misturam sinônimo de má gestão. Entretanto, laços de família podem também ser importantes no estabelecimento da confiança necessária para se realizar negócios. Além desta, as vantagens de se trabalhar em família são: a união do grupo em prol da longevidade da organização; o processo de decisão é mais rápido, uma vez que não há necessidade de consultar diversos acionistas ou passar por processos complexos. Há uma maior capacidade de transmitir valores familiares e maior facilidade de comunicação e fortalecimento da política da empresa decorrente da primeira geração.

Existe maior flexibilidade na gestão diária, quando as empresas são relativamente pequenas. O empenho dos familiares que gerem uma empresa é, normalmente, maior que em outro tipo de gestão. Por isso, os planos são feitos a longo prazo, porque também há uma maior estabilidade ao nível de capital e dos seus detentores. Além disso, em situações de crise, este tipo de empresas tende a demonstrar a importância da ajuda entre todos e rapidez no corte das despesas.

Em síntese, o ideal para obter o sucesso desse tipo de empresa é: manter o equilíbrio entre: os interesses da família e o da empresa familiar. Os objetivos da empresa devem, necessariamente, ser cumpridos primeiramente por seus sócios e gestores da própria família. Estes devem dá exemplo, enquanto líderes, aos demais colaboradores. Outro ponto pertinente, é acabar com a falta de profissionalismo, como seria em qualquer outro tipo de negócio.

Deve-se separar o que é patrimônio da empresa e da família, de modo que não ocorra a repartição deste em razão de objetivos pessoais. Outro fator seria: não destinar altos salários, bons cargos ou promoções para membros que não cumpram com suas reais atribuições dentro da firma.

Dessa maneira, deve-se implantar de forma eficaz e eficiente: a profissionalização da gestão e o planejamento estratégico de sucessão familiar. Partindo do princípio que a empresa é administrada por profissionais, e a família deve exercer apenas um papel de governança e de propriedade. Embora o núcleo familiar seja o mesmo, a empresa familiar deve passar a ser uma “família empresária”, aquela onde os papéis e as responsabilidades dos familiares com relação à empresa, bem como entre os sócios, está baseada num conjunto claro de regras e um plano efetivo para o futuro.

E a sua empresa, tem um plano de sucessão? Qual será o destino dela?

FONTE: https://bit.ly/2Nml7Jx

REFERÊNCIAS:

https://cepein.femanet.com.br/BDigital/arqTccs/1111391431.pdf

https://comum.rcaap.pt/handle/10400.26/20743

http://www.sebrae-sc.com.br/newart/default.asp?materia=1041

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